A palavra CRISE, no idioma chinês, traz em sua representação gráfica, um pouco da sabedoria milenar de seu povo.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
O civismo nosso de cada dia
O cliente era novo. O centro de convenções também não estava habituado a eventos com interpretação. Tudo perdoável. O assunto era interessante – um atrativo, mas demandaria muita atenção. Aquela atenção que se dá a coisas novas. Que vem carregada do receio de quebrar encantos e da vontade de causar a melhor das impressões. “Olá, Mr. So and So, interessante sua tese...” “Sim, adoraria saber mais a respeito” – Bem, pelo menos essa parte era totalmente verdadeira, agora que vejo o teor e quantidade de siglas e símbolos que me esperavam.
Estávamos a 5 minutos do início da palestra, e percebia que os 40 minutos destinados ao palestrante seriam preenchidos com uma apresentação de mais de 80 slides que me acabara de ser dada, juntamente com a informação de que alguns slides foram adicionados aqui e ali. Uma matemática simples indicava problemas na velocidade da palestra. Junte-se a isso o fato da tela estar a mais de 300 metros da cabine, e eu não ter o hábito de carregar binóculos nessas interpretações. Quando vou aprender: Sempre tenha a apresentação antes da palestra (bem antes!). Nunca fique a mais de 100 metros da tela de projeção, a menos que tenha um binóculo consigo.
Começam os protocolos: Sr deputado, excelentíssimo Sr. Ciclano, magnânimo Sr. Fulano... O fato é que quando anunciaram o hino do município, ainda estava me entendendo com os slides. “Cada segundo conta!” reclamei, desculpando-me por não querer levantar para o hino. “Uma marcha meio militar,” pensei depois de alguns acordes. Pensei também que talvez devesse, de qualquer forma, me perfilar frente à bandeira do município, mão ao peito, cara de civismo e compenetrado olhar de conteúdo. Não, não tenho tempo para me sentir culpado. Prefiro ser mais preciso quando for a hora de agir traduzindo. Quem olha para dentro da cabine, afinal?
O curioso é que parecia reconhecer vários trechos do hino. Me soava como algum desses que cantávamos em datas cívicas, dia da bandeira, do soldado, algo de cunho militar, distante em minha memória, mas suficientemente perto para me pegar lembrando de versos.
De repente, o curioso desconforto de desconfiar que o hino da cidade não é aquele. E, bem, não era mesmo.
Olhei para o rapaz do som: mesa com 16 canais, muitos botões coloridos e controles deslizantes. Achava-se um piloto de aeronave espalhando som pelo ambiente. Temi por sua presunção quando a audiência descobrisse a gafe. O desconforto seria atroz. O que fazer? Ir até o fim? Pedir desculpas? Fiquei com pena do pobre rapaz. Não fez nada. E o pior é que quase ninguém reconheceu o erro. Um representante do cerimonial municipal, devidamente trajando preto (por que sempre preto?) aproxima-se do jovem. Lá pelos intermináveis 4 minutos , o resultado: uma redução abrupta de volume e o anúncio solene do condutor do evento: “Belo hino. Agora que o ouvimos, começaremos de novo, com o hino CERTO.” Ri quieto, incontidamente no escuro da cabine, enquanto novamente ouvíamos o famoso (?) hino da cidade. Ganhei mais alguns minutos para revisar a apresentação e pensar o quão presos estamos a certos protocolos sócio-culturais.
Entendo o rito e o protocolo como forma de coletivização e como reforço a um senso de pertencimento gregário. Mas nunca sei como me portar quando o rito falha. Vale rir? Posso rir? Acho que a verdade e o riso são no fundo, compadres , que se encontram sempre que se revelam essas inconfessáveis mentiras sociais. Quem queria efetivamente ouvir àquele hino? Nem eu, nem eles.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Dona Flor e seus Dois Maridos (um deles, o tradutor)
E então houve um dia em que realizei um casamento. Não estou falando de apresentar alguém, empurrar amigos solteiros, matchmaking como se fala nos EUA. Foi um ato profissional e compreende uma das possibilidade de ação de um tradutor juramentado.Como tal, fui contratado para celebrar, junto com o juiz de paz, uma cerimônia de casamento civil. Explico: quando uma das partes envolvidas nesse ritual social de união em martírio eterno, com direito a sexo eventual e milhões de horas de conversação unidirecional (convém explicar melhor em outro post), comumente chamado casamento civil, é um estrangeiro,o juiz exige que alguém traduza para o infeliz o teor do que está prestes a fazer. Há sempre a esperança, penso eu, que com a tradução ele se arrependa e diga, “ah, então é isso. Esqueci uma panela no fogo lá em casa. Já volto”. Ao que a noiva poderia perguntar, “mas sua casa não é em Pitsburg?” (Fecha-se a cortina em pano rápido).
Fiquei tão nervoso que mais parecia o noivo. Afinal, tornar-me-ia um cúmplice de tal aliança.
O curioso é que não só li os ritos, “você, Mr. So and So, aceita ciclana como sua esposa, etc, etc” como ainda fui obrigado a assinar junto com o noivo na certidão de casamento. Está lá, até que a morte os separe... Peraí, casamento civil: Até o dia de ler os termos do divórcio.
Mas até lá, “Deus meu! Sou quase o marido.”
terça-feira, 20 de abril de 2010
O Alemão que veio da China
Um trabalho de última hora, eu nem sabia ao certo quem era aquele palestrante. Um loiro alto com traços arianos, bem aparentado, mas um jeito de corpo que ao longe me lembrava um oriental. Não, orientais, pelo que me lembro, têm olhos distintamente puxados, cabelos notadamente lisos e pretos, e falam idiomas, bem, “orientais”. Há sempre a questão da globalização, pode-se argumentar.
De qualquer forma algo não estava certo. Uma empresa alemã, tradicional, havia me contratado para interpretação de uma palestra, cabine compartilhada, desse novo sistema de manutenção e serviço de revisão para seus carros. Coisa moderníssima, você não precisava mais ficar sem o veículo durante um dia ou mais a cada 10.000km por causa da revisão, bastava entregar a chave do carro na oficina (será esse ainda o nome – ou algo mais fashion como “centro de atendimento e serviços veiculares especializados”). A chave continha um chip com todos os dados técnicos do carro, pressão dos pneus, temperaturas médias de motor, óleo, desgaste, peso dos ocupantes (tá, essa já foi demais) etc.Independentemente do teor da palestra, acharia mais fácil que fosse dada em alemão, com intérpretes alemães, e não por mim. Mas, ei, The Customer is always right, é o que diz no cartaz.
Mal entrara na cabine e logo chega minha parceira. Para minha grata surpresa, trata-se de uma nativa do idioma inglês. Nascida em Londres e pronta para o que der e vier. Se tinha qualquer temor sobre compreender o sotaque daquele alemão, com alguém nativo ao lado, me revesti da segurança que faltava.
Casa cheia, som ligado, apresentação na tela, hora do show.
Lembre-se: é importante conversar com o palestrante antes do evento, sentir sua pronúncia, saber como conduz sua apresentação, “modular” seu ritmo e entonação. NÃO FIZ NADA DISSO.
Mal começara e percebi na apresentação o porquê do jeito oriental: ele vivera dois anos na China e apenas há uma semana estava retornando ao ocidente, com direito a essa escala no Brasil para um treinamento e palestra.
O fato é que dois anos haviam feito um estrago enorme em sua habilidade de se comunicar em inglês. Curiosamente, aquilo que saia de sua boca soava quase, “chinês.”
Bem, ainda não era hora de entrar em pânico, afinal tinha uma companheira de cabine capacitada para sotaques difíceis....ou achava que tinha.
O fato é que, após 20 minutos de interpretação e ao passar para ela o microfone, presenciei um descontrole único em minha carreira como intérprete. Ela começava a reclamar ao mesmo tempo que traduzia, (traduzia? Confesso que entendia 20% do que era falado). Depois de 15 minutos, quando já me preparava para a troca, ela simplesmente deu-me o microfone e levantou-se. Assumi, usando a técnica de ler o slide quando a coisa ficava impossível e tentar esperar o melhor da situação. Pensava comigo, “ora bolas, faço isso há anos, tenho um excelente ouvido. Se não entendo, eles também não, assim, sou a melhor opção que têm”. E lá fomos nós.
Lembro-me de vê-la acenando para mim, despedindo-se ali mesmo, e saindo fula da vida, sem se preocupar em não deixar a porta bater. Nunca mais a vi...
Ok. Somos você e eu, jovem alemão-chinês que “fala” inglês. E olhe que ao passo de 40 minutos estava indo bem quando chegamos ao slide que traz um carrinho de compras e nele eram colocadas ferramentas, ou bem podiam ser bolas de futebol, ou calotas de carro. Na verdade, o próprio carrinho podia ser qualquer outra coisa, já que a conclusão de que as rodas do carrinho eram rodas e não simples orifícios em uma folha de caderno, era minha. O fato é que ouvia o palestrante dizer o que soava como “shop cart” - Eu sei, eu sei, antes que os mais alertas digam-me, o correto é “shopping cart.” Retruco que nessa altura, a falta de um “ing” seria o menor dos problemas. Decidi então que esse era o sistema: um carrinho de compras onde eram colocados os elementos de manutenção. Desnecessário dizer que a audiência aos poucos, tanto quanto eu, começara a desconfiar que algo estava errado. Embora confiantes naquele tradutor que conseguia entender palestra de tamanha dificuldade, agora começaram a perceber que a realidade era outra.
Faltavam ainda 5 minutos para o término do que seria a primeira parte quando o gerente geral da empresa não se conteve e interrompeu o palestrante, “Já sofremos demais”, disse ele. Foi até o palco, desculpou-se com os presentes e, vejam só, desculpou-se com os tradutores. Agradeceu a presença de todos e saiu com o palestrante pelo braço, por uma porta lateral de maneira abrupta, clássica, e ouso dizer, extremamente germânica.
Não pude nem ao menos me despedir de meu contato, um dos que havia se trancado em alguma sala com o gerente e seus técnicos.
Recebi normalmente por todo o evento, mas juro que até hoje, 10 anos depois ainda não sei como funciona aquele carrinho de compras....
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Entre fios, diagramas e frutas
A necessidade de dois intépretes em eventos com duração longa nem sempre condiz com a realidade do contratante, ou a disponibilidade do intérprete. Sei disso, mas naqueles 3 dias de evento havia apostado em meu grande conhecimento do assunto e na aparente facilidade do treinamento, recheado de pausas e atividades que me permitiriam descansar o suficiente para manter minha atenção em bom nível.
O excesso se deu, de fato, quando decidi invadir a madrugada da noite anterior ao último dia do evento traduzindo um texto técnico. Some-se a isso, um almoço de encerramento, em que, bem, abusei um pouco.
O fato é que na parte da tarde o palestrante se colocou a ler diagramas elétricos, interpretando seu destino e origem, e todos os equipamentos que se penduravam em cada sistema e subsistema.
Lembro-me de começar a falar na segunda hora. O segredo é não conversar mentalmente. Um símbolo na tela, me lembrava de um abacate. Era apenas uma botoeira ou um dispositivo elétrico qualquer, mas, bem, do abacate à imagem de uma fruteira, o passo foi instantâneo. Estava praticamente sonhando e nessa ruptura com a realidade, comecei a traduzir as imagens que me vinham à mente.
O espanto começava a se espalhar quando a audiência buscava em vão um lampejo de realidade em minha interpretação. Oportunamente, uma série de olhares atônitos em minha direção me fez ver que o discurso daquele engenheiro elétrico em nada tangenciava a tradução culinária que eu despejava sobre a audiência.
Sabiamente, prossegui trazendo para a realidade uma série de intangíveis metáforas com frutas e alimentos.
O curioso e supreendente para mim foi quando, durante o próximo intervalo, um dos presentes me congratulou pela habilidade em traduzir aquele discursso tão comlexo onde o palestrante havia partido para comparações incríveis do sistema, um elemento racional e intangível com uma leitura orgânica em mais abrangente.
Agradeci os parabéns, engoli a seco e, antes que corasse na frente de todos, fui lavar o rosto.
O excesso se deu, de fato, quando decidi invadir a madrugada da noite anterior ao último dia do evento traduzindo um texto técnico. Some-se a isso, um almoço de encerramento, em que, bem, abusei um pouco.
O fato é que na parte da tarde o palestrante se colocou a ler diagramas elétricos, interpretando seu destino e origem, e todos os equipamentos que se penduravam em cada sistema e subsistema.
Lembro-me de começar a falar na segunda hora. O segredo é não conversar mentalmente. Um símbolo na tela, me lembrava de um abacate. Era apenas uma botoeira ou um dispositivo elétrico qualquer, mas, bem, do abacate à imagem de uma fruteira, o passo foi instantâneo. Estava praticamente sonhando e nessa ruptura com a realidade, comecei a traduzir as imagens que me vinham à mente.
O espanto começava a se espalhar quando a audiência buscava em vão um lampejo de realidade em minha interpretação. Oportunamente, uma série de olhares atônitos em minha direção me fez ver que o discurso daquele engenheiro elétrico em nada tangenciava a tradução culinária que eu despejava sobre a audiência.
Sabiamente, prossegui trazendo para a realidade uma série de intangíveis metáforas com frutas e alimentos.
O curioso e supreendente para mim foi quando, durante o próximo intervalo, um dos presentes me congratulou pela habilidade em traduzir aquele discursso tão comlexo onde o palestrante havia partido para comparações incríveis do sistema, um elemento racional e intangível com uma leitura orgânica em mais abrangente.
Agradeci os parabéns, engoli a seco e, antes que corasse na frente de todos, fui lavar o rosto.
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